UMA MULHER FANTÁSTICA (1ª parte)
Ela era uma criança doente. A mãe preocupada não cansava de contactar os mais conhecidos médicos em busca de tratamentos mais eficazes para a forte tosse que assolava Wera Ivanovna. As fortes crises davam a impressão que seu peito iria explodir a qualquer momento. Ela foi diagnosticada com tísica, doença que carregava o estigma da morte.
Wera passou toda a infância perseguida pela ideia de proximidade com a morte. Nas noites em claro via ao lado de sua cama uma velha e magra senhora, que para ela representava a morte que a esperava. A menina Wera contava a sua babá que a presença dessa aparição fazia sua situação menos entediante. Uma noite, Wera acostumada sempre com a mesma aparição se surpreendeu por não encontrá-la ao lado de seu leito. Em seu lugar havia uma jovem de extraordinária beleza, seu sorriso emitia espantosa luminosidade, que fazia Wera pensar no calor do sol. Todo o quarto se iluminou como se o sol estivesse em seu ponto mais alto, entretanto ainda era noite. Wera surpresa, indagou: - Mas onde se encontra a senhora que me visitava todas as noites? A jovem sorrindo respondeu: - Ela não existe. Era sua imaginação. Como você concebia a ideia da morte. A morte é apenas uma nova vida, que você não deve temer.
Depois desse evento, Wera melhorou. E todos ficaram surpresos com sua rápida e surpreendente melhora. Ela não tinha mais as crises de tosse, que foram substituídas por crises mediúnicas. Onde a menina Wera via eventos do passado e do futuro, guerras e eventos históricos. Seus relatos sobre os primeiros cristãos, os sacrifícios nas arenas romanas, carregavam uma complexidade de detalhes que chocavam seus ouvintes. Como uma criança poderia ter tamanho conhecimento? Ao buscar a veracidade das informações, detalhes e datas eram sempre confirmadas. Com sete anos Wera mal sabia ler em russo, nem em francês. O conselheiro da rica família de Wera aconselhou de encaminhá-la a um pensionato para meninas. As ricas famílias russas eram educadas em francês, Wera fora mandada ao pensionato, pois sua saúde assim permitia. Sua educação deveria seguir o padrão da meninas nascidas em famílias ricas da sociedade russa da época. Entretanto, a vida no pensionato para ela fora um período triste.
Apresentava imensa dificuldade de aprendizado, mal conseguia escrever em francês. Finalmente, com muita paciência e sabedoria, Wera começou a se relacionar melhor com suas companheiras de escola. Acabou por deixar de ter crises mediúnicas. Amada por todos devido ao seu caráter doce continuava apresentando extremas dificuldades escolares. A punição mais grave para uma menina de treze anos era uma nota ruim, por causa dessa nota ruim ela foi proibida de passar o Ano Novo com sua família, devendo ficar no pensionato estudando. Ela chorou muito e acabou adormecendo. Ao acordar, ao seu lado, um texto escrito com sua própria letra estava sobre a escrivaninha. Wera mostrou esse texto aos seus professores sem nada comentar sobre a sua produção. Foi elogiada e seu texto recebeu uma condecoração escolar pela originalidade do estilo. A jovem Krijanovskaia não se lembrava de modo algum de quando produzira aquele texto, mas estava contente, pois poderia passar as festas de Ano Novo com sua família. A partir desse evento, ela passou a ser observada com mais atenção. Percebeu-se que Wera, de tempos em tempos, empalidecia, tomada de uma brancura súbita, e, se papel e lápis estivessem ao seu alcance suas mãos produziam romances com velocidade espantosa.
Quando não tinha um lápis ao alcance de sua mão, fazia movimentos estranhos, como se escrevesse com lápis e papel invisíveis. Na família ninguém estranhou isso, pois já estavam acostumados, entretanto, as crises mediúnicas eram consideradas uma enfermidade. Com a morte de seu pai a vida de Wera mudou bruscamente, a família empobreceu e ela se viu obrigada a deixar a escola. Na esperança de sair dessa situação penosa ela casou-se com V. Semenov, um funcionário do alto escalão do governo, ligado ao Imperador Russo. Semenov era um homem de muito mais idade do que Wera, então com dezoito anos. Ele era tido por uma pessoa de boa índole, muito agradável e considerado bonito pelas mulheres. Wera não tivera problemas com ele, entretanto, tivera que dividí-lo com amantes. Wera, agora pobre, que abandonara os estudos e conhecia mal o francês (idioma utilizado na corte russa) não seria a esposa ideal para um homem rico de grande influência. Entretanto, ele era declaradamente espírita e Wera já havia obtido alguma notoriedade através de seus textos mediúnicos.
Porém, não sabemos que influência isso teve, nem as razões que levaram a essa aproximação e posterior casamento entre Wera e Semenov. Wera tinha bastante tempo livre. Semenov se ausentava seguidamente, seja por compromissos profissionais ou afetivos. Com isso ela passou a escrever com maior frequência, e aos poucos foi compreendendo o que acontecia com ela. Certa noite, em preces, pediu a Deus que enviasse até ela um professor, que pudesse auxiliá-la a escrever e desenvolver suas habilidades mediúnicas. Uma noite ela recebeu uma mensagem diferente: “Mística! Como um nadador que enfrenta as ondas em uma tempestade você mergulhou num oceano de enigmas sagrados e incompreensíveis que amedrontam. Entre as sombras que te rodeiam nas lutas que o futuro te reservará, tua vontade será sua única companheira. Sua esperança estará assentada sobre a dedicação que empreender, esse será o farol a te guiar. E para chegar a esse farol precisará reunir todas as suas forças. Uma forte luz que vem de mais alto irá iluminar teu caminho”. Wera não se impressionou com um vulto que caminhava em sua direção saindo de um canto pouco iluminado do quarto.
“Chamo-me Rochester!” – disse ele.
Obs: Esse material inédito foi traduzido por Oxana Kurbanova a partir de diversas biografia escritas em russo e por mim redigidas com o auxílio de um amigo espiritual que fez questão de não querer se identificar.
Rafael Figueiredo - nasbrumasdamente.blogspot.com